N(ovo): o universo de Thiago de Barros
Atualizado: 30 de mai. de 2019
O que é o ovo? Talvez o escritor e pesquisador Thiago de Barros possa nos explicar. Então aperte o cinto porque hoje o Quadrado Literário te convida a mergulhar em um universo no qual autores - vivos e mortos - conversam entre si e todos os sentidos do leitor são postos à prova.
Acompanhe abaixo nosso bate-papo sobre a obra N(ovo), lançada em fevereiro de 2019. Mas antes, confira a sinopse:
Este livro é sobre o ovo. Não. Este livro é sobre um agente do ovo. Não. Quem veio primeiro? Múltiplas camadas de diferentes dimensões, de narrativas, personagens deste mundo e de outros. Fantasmas célebres, extraterrestres, herdeiros da obviedade do ovo, dialogam em sessões quase espíritas se não mais espirituais, como uma canção. Baladas de um louco. Confissões de voo. Antes do ovo, veio a sombra do ovo. O ovo é o epicentro de tudo neste romance vertiginoso e plurivocal. Magia, fluxo e experimentação. Um salto no vácuo, um despegar do chão. Tudo N(ovo), de novo

QL: N(ovo) tem uma linguagem diferente do que se costuma ver por aí. Como você define o projeto? De onde surgiu a ideia?
Thiago: Este projeto é por essência experimental. O texto em si é o resultado de experimentos de criação literária baseados em psicologia comportamental que venho desenvolvendo desde 2012. Os primeiros experimentos que realizei e testei em algumas oficinas oferecidas em 2014 e 2015 eram focados em escrita criativa poética. Então, eu passei a me interessar por formatos mais robustos, como são as prosas, e o N(ovo) surge a partir desses experimentos de criação literária realizados no Rio de Janeiro em 2016. Os elementos fundamentais da narrativa, ou seja, o ovo e os autores brasileiros que eu homenageio em alguns personagens, surgem a partir do contexto em que eu estava trabalhando na época. Minha temporada de dois meses no Rio foi para executar um trabalho de monitoria numa exposição sobre a vida e obra de Caio Fernando Abreu - escritor brasileiro que é definitivamente uma influência no meu trabalho.
QL: Além de escritor, você também é pintor. Como as duas artes se misturam na sua experiência? Você tem mais alguma outra habilidade artística além dessas duas?
Thiago: Esta interface entre a criação e a psicologia é em decorrência dos meus estudos na pós-graduação. Na doutorado em ciências comportamentais eu estudei um tema chamado variabilidade comportamental, que é uma maneira de compreender e explicar o comportamento criativo, ou seja, o comportamento novo. Esta foi a influência acadêmica que me levou a extrapolar esses conhecimentos, tomando por base a criação artística. Então, ao mesmo tempo que eu desenvolvia narrativas baseadas nesses experimentos, adicionei elementos tridimensionais que estavam de alguma maneira atreladas ao processo de criação.
Esses elementos foram pinturas, assemblages, colagens, algumas vezes inspiradas pelo texto anterior e outras vezes construídas para que o texto pudesse existir a respeito delas. No dia do lançamento do N(ovo), eu expus quatro obras relacionadas ao texto. Duas telas de pintura e duas assemblages (que são colagens tridimensionais). Essas obras ficaram expostas junto dos trechos dos textos relacionadas a elas, como se as páginas tivesses ido para a parede. Costumo dizer que a palavra é multimídia e me interesso por experimentar formatos onde podemos contemplar a palavra em algumas de suas infinitas facetas.
QL: O lançamento do seu livro contou com ferramentas multimídia. É esse o futuro que você imagina para a literatura? Uma integração necessária com outras formas de contar histórias?

Thiago: Aí entra essa questão da palavra multimídia. Além das obras de artes visuais que estavam expostas, na data do lançamento e durante a semana seguinte, ficaram disponíveis ao público no Café Savana as plataformas sonoras nas quais o leitor poderia ouvir a versão auditiva do livro. Enquanto o livro estava sendo impresso, reunimos um time especial de autores e atores de Brasília que fizeram a locução do livro. Desse modo, o N(ovo) vem ao mundo híbrido, ele é livro e audiolivro. Todos que tiverem um exemplar conseguem acessar ao material em áudio que também está disponível em plataformas especializadas para audiolivros, como o Ubook. Eu sou um grande entusiasta dessas formas diferenciais de contar histórias e tenho interesse em continuar produzindo literatura a partir dessas interfaces.
QL: N(ovo) promove diálogos inventados entre pessoas que realmente existiram. Como foi se colocar na pele de cada uma delas para imaginar o que diriam?
Thiago: Essa é uma ótima pergunta. Nos leva novamente à questão dos experimentos. Veja, quando eu trabalhava apenas com a poesia, uma das técnicas que desenvolvi chamei de “psicografia inventada”, e ela consiste basicamente em ler quantitativamente a obra de determinado autor e anotar ideias, sobretudo palavras que parecessem importantes. Essas ideias e palavras anotadas serviam de dado base para os experimentos de criação. Ou seja, os poemas criados a partir dessa técnica refletiam o universo semântico e vocabular do autor escolhido para a coleta de dados.
Uma das técnicas que desenvolvi chamei de “psicografia inventada” - Thiago de Barros
Como esses autores geralmente estavam mortos (parece que a gente só compra livros e lê autores que já se foram para o lado de lá, mas isso é outra história…), resolvi chamar de psicografia em alusão à escrita supostamente inspirada pela vontade de fantasmas. Os fantasmas do N(ovo) foram aqueles de que tentei intoxicar-me em função do meu trabalho que citei no Rio de Janeiro, ou seja, além do Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Hilda Hilst. Todos eles tiveram contato e algum tipo de relacionamento quando estavam vivos. Assim, imaginar-me na pele deles foi possível por meio do estudo disciplinado de textos desses autores, assim como aspectos de sua vida pessoal. Há outros fantasmas no texto, e suas vozes vêm do mesmo lugar: de suas próprias falas enquanto estavam vivos, ou do que eu compreendi sobre o que tive acesso.
QL: Por que a referência ao ovo?

Thiago: Nos campos da experimentação existe uma palavra que adoro: serendipidade. Significa, em termos gerais, descobrir algo enquanto se procura outra coisa. A penicilina foi descoberta assim! O ovo é serendipidade total nos experimentos do N(ovo). Eu já estava bem avançado no desenvolvimento do texto. Eu havia selecionado a técnica (psicografia inventada) e escolhido os principais fantasmas, estudando vida e obra desses. O tema que eu havia escolhido para unificar os fantasmas foi o mais óbvio - o misticismo/ocultismo. Isso porque minha pesquisa me fez perceber que esses autores tinham uma característica peculiar: eram afeitos às coisas mágicas.
Caio Fernando Abreu estudava astrologia e escrevia sobre esses processos. Hilda Hilst tentava gravar vozes de fantasmas e produzia material escrito a respeito. Clarice Lispector já apresentou um texto num congresso internacional de bruxaria que aconteceu em Bogotá (1975). E o ovo aparece aí. O texto que Clarice levou ao congresso é o maravilhoso conto “O ovo e a galinha”. E ainda, Caio Fernando Abreu escreveu o conto “o ovo apunhalado”, provavelmente inspirado no trabalho de Clarice. Então, a partir dessas “coincidências” comecei a focar a pesquisa em torno da ideia de ovo difundida na obra dos meus fantasmas. E achei muita coisa! A partir daí acho que a magia aconteceu. Eu consegui um eixo temático que achei perfeito para a narrativa que consegui produzir.
QL: A edição do livro foi muito bem trabalhada. Você mesmo definiu todos os detalhes da produção?

Thiago: Eu coordenei todo o projeto literário, do livro físico ao audiolivro, passando pela exposição/lançamento. Mas eu tenho uma enorme sorte de ter tido parceiros muito talentosos e queridos. Em relação ao projeto gráfico editorial, do meu amigo Hugo Pereira Rocha (recomendo!), foi um processo de longo prazo. Antes da elaboração do projeto para ser submetido ao FAC [Fundo de Apoio à Cultura], onde fui contemplado em um edital de publicação, já havíamos feito um projeto gráfico para apresentar. Para fazer esse projeto, o Hugo leu o texto e depois a gente conversou, a respeito de formato, leiturabilidade, diegese da narrativa. O Hugo trazia as alternativas e a gente aprovava juntos. Eu sempre quis que meu primeiro livro fosse bem bonito e eu consegui realizar esse objetivo. Sou bem orgulhoso da “sensação de livro” que o N(ovo) me dá e espero que os leitores tenham boas sensações com este objeto também.
QL: Qual é sua mensagem para o mundo?
Thiago: Eu tenho certeza de que todo escritor tem uma "cosquinha" na alma sobre isso desde a infância. Comigo não é diferente. Publicar este livro, trazer esta parte da minha subjetividade para a vida material é uma grande realização e eu devo isso a muita, mas muita gente mesmo! O percurso foi bem grande, mas, enfim, três anos depois de escrito, o N(ovo) vem ao mundo! É importante dizer também que fazer um livro bonito custa caro e eu não teria recursos para produzir este produto se não fosse pela seleção pública de um edital da Secretaria de Cultura do Distrito Federal.
Eu escrevi o projeto em 2017 e acho uma alternativa interessante para autores iniciantes diante dessa atual confusão que é o mercado literário. Infelizmente essa linha de recursos está sendo ameaçada pelos atuais governantes e gestores e isso é uma má notícia. Mas para não terminar esse papo bom com má notícia, eu quero dizer também que o livro só é livre mesmo depois que chega ao leitor. É uma experiência para ser compartilhada. O N(ovo) está em todas as bibliotecas públicas do DF, e também em 50 escolas públicas de ensino médio em diferentes regiões administrativas. Além disso, estou enviando exemplares para canais de comunicação relacionados com literatura e com a divulgação da literatura, assim como o Quadrado Literário!
Mais de 150 exemplares estão sendo distribuídos para imprensa, mídia digital, editores e editoras, jornais literários e professores de literatura em todo o Brasil. Além disso, está programado um envio para associações que representam e assistem deficientes visuais porque o audiolivro é também uma medida de acessibilidade ao texto. Estou batalhando para o livro chegar aos leitores e espero conseguir alguns com essa oportunidade neste canal que agradeço muito!
Assista aos teasers produzidos pelo autor para o lançamento do livro:
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