Chico Buarque mereceu o Camões?
Atualizado: 30 de mai. de 2019
Não sou fã de Chico Buarque. Essa minha afirmação já rendeu alguns apedrejamentos. Sim, reconheço o lirismo e evidente qualidade de suas letras. Admiro o artista enquanto pessoa. Mas nunca vi nos versos melódicos e arrastados algo que me compelisse a ovaciona-lo. Questão de identificação. A malemolência musical do Chico nunca me disse respeito.
Nesta semana, a notícia pegou alguns de surpresa: Chico Buarque de Holanda venceu o Prêmio Camões, a maior premiação na literatura de língua portuguesa. O júri elogiou o conjunto e a « transversalidade » de sua obra. As críticas dispararam pelo portão. Será que ele merecia?
Quando o Bob Dylan venceu o Nobel de literatura, eu confesso: chiei. Como assim, um músico, vencer um prêmio dessa envergadura? Quantos romancistas (principalmente mulheres) foram escanteados para dar distinção a um poeta da música? Ainda tenho minhas reservas.
Com Chico é diferente. Embora só tenha lido efetivamente um de seus livros — « Leite Derramado » — não me veio essa sensação de revolta que parece acometer os escritores que se creem injustiçados apenas por não serem lidos (drama queen). Na verdade, achei bastante razoável. Não, continuo não gostando do Chico cantor. Mas, sim, posso atestar que ele é um grande escritor.
Evidentemente, Chico Buarque não venceu o Camões apenas por seus livros. Isso é óbvio e claro como dois e dois são quatro. Ao meu ver, entretanto, sua obra literária tem suficiente qualidade para sustentar o reconhecimento. Chico escreve magistralmente bem. Acreditem, relutei em confessar isso.
Dadas as devidas congratulações, é preciso lançar luz sobre o problema, um que não está sendo devidamente discutido ou apontado. É que o Chico escreve bem, mas escreve sobre os dele: os homens, invariavelmente brancos e da alta sociedade. Em Leite Derramado, o protagonista é integrante de uma família aristocrática e decadente, e relembra seus tempos de « sinhô » remanescente da época colonial com um ar de saudosismo.
Todos conhecemos a sensibilidade histórica e social do Chico. Ele não se esquiva em criticar, ainda que irônica e veladamente, essa sociedade da qual faz parte. Não é sobre isso. É muito mais sobre a figura e sua herança de discurso. Sobre quem está falando, e sobre quem é ouvido.
Fazer o que. Enquanto não temos representatividade nesse panteão literário de mestres, celebremos o Chico e seu inesperado Camões.





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