Coluna: Como aprendi a ler mulheres
Atualizado: 30 de mai. de 2019
(e minhas cinco autoras favoritas)
Quando as conversas sobre a necessidade de ler mais escritoras mulheres começaram, há uns quatro anos, confesso: achei exagerado. Oras, se gosto de ler, leio o que quiser, independentemente da autoria, não é mesmo? Então uma amiga me desafiou a listar cinco autoras mulheres de quem eu gostasse, gostasse mesmo, a ponto de colocá-las no cantinho dos favoritos. A vergonha me inundou da cabeça aos pés quando minha lista começou a ser desenhada e faltaram nomes. Eu percebi que a literatura é um produto do mundo e, como ele, reflete suas injustiças. Se eu lia o que queria, o que a mídia me mostrava, mas não lia mulheres suficientes, quantas histórias estava perdendo? Quais pontos de vista tinha me esquecido de anotar?
Não era uma mobilização vazia, percebi (tardiamente). O mundo criativo está cheio de exemplos de como boas artistas foram sufocadas pela facilidade com que os homens sempre dominaram a indústria – inclusive, recomendo muito o filme A Esposa, que concorreu ao Oscar este ano.
O caso é que, sublinhada a minha ignorância, corri para conhecer quantas autoras fosse possível, e hoje, curiosamente, leio mais mulheres do que homens. Aprendi até que as mulheres escrevem um pouco melhor, ou ressoam melhor para o meu gosto poético, que gosta de ler sobre as coisas de perspectivas diferentes. Das autoras maravilhosas que descobri e pelas quais me apaixonei, listo cinco aqui. Se você nunca leu nenhuma delas, pare de perder tempo e faça isso.
Adriana Lisboa

Sou suspeita para escrever sobre essa autora, que nasceu no Rio de Janeiro e tem uma boa bagagem de romances por aí. Certa vez, escrevi um artigo só sobre ela, sobre a delicadeza de sua prosa, sobre a poesia inerente de suas paisagens, e recebi um e-mail agradecendo a gentileza da leitura (e era um e-mail tão bonito que eu quis emoldurar). Recomendo, para começar, os romances Sinfonia em branco, que ganhou o prêmio José Saramago, e Hanói.
Andréa Del Fuego

Outra escritora brasileira que entrou definitivamente no meu coração. Andréa também tem a linguagem poética e flerta com o fantástico em suas histórias (infelizmente, ela não lança um romance novo há um tempinho… espero ouvir notícias em breve). Recomendo Os Malaquias, que também venceu o prêmio José Saramago, e As Miniaturas. Esse último é uma deliciosa viagem onírica, e eu recomendo não pesquisar mais nada sobre o livro antes de lê-lo.
Inês Pedrosa

Essa portuguesa, para mim, é de longe uma das melhores escritoras da história da língua portuguesa. Toda vez que leio um livro dela, tenho vontade de chorar. Inês não escreve: faz artesanato de palavras. Prova cada uma delas antes de colocar no lugar, mexe com as coisas dentro da gente. Recomendo, para quem não conhece, os meus livros favoritos: Nas tuas mãos e Desamparo.
Jennifer Egan

Essa romancista americana mora em Nova Iorque, e eu acalento uma fantasia secreta na qual compro uma passagem em promoção, consigo seu endereço e levo um exemplar de A Visita Cruel do Tempo para ser autografado. Pois, sim, este livro – vencedor do Pulitzer – é uma das obras mais geniais que eu já li. Sou fiel a uma escritora quando leio algo que me modifica tão completamente, então já fiz check-in em todos os romances dela nos quais consegui colocar as mãos. Mas A Visita Cruel do Tempo é, sem dúvidas, o melhor deles, e um belo cartão de apresentação.
Isabel Allende

Um dia, ao me emprestar seu exemplar de A Casa dos Espíritos, um amigo me disse: "Eu não acredito que você nunca leu Isabel Allende. Ela é sua cara!". Ele tinha razão. A escritora chilena tem o dom para contar histórias pela delicadeza, ressoando no panteão dos grandes da literatura latino-americana. É uma daquelas autoras que eu leio e penso "quero ser assim quando crescer". Para quem não quer começar pelo exemplo mais famoso, e meu próprio debute, sugiro os livros: A Ilha sob o Mar e Contos de Eva Luna.





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