O amor indolor
No final de junho passado, mês do Orgulho LGBTI, o Quadrado Literário realizou um debate para o qual fui convidado e onde conheci a poeta e editora Tatiana Nascimento. Como costuma acontecer na literatura, em que o “já ouvi falar” é mais frequente do que o “já li”, até encontrá-la, só sabia de superficialidades de seu trabalho. Após duas semanas de mergulho nas obras dela e de puro encantamento, dedico este texto a te convencer a também ir a fundo nas propostas textuais de Tatiana.
Primeiro, há que se tatear em busca de um caminho pela escrita dela. Acredito que eu tenha feito a jornada mais incomum: parti do ensaio “Cuírlombismo literário” para os poemas, em especial os reunidos no belíssimo “07 notas sobre o apocalipse ou poemas para o fim do mundo”. Não há um caminho certo, mas recomendo ao leitor o inverso.
“(...) pra mim, um paraíso cuíer é um pouco de qq coisa que me traga a calma da sua coragem da sua calma.” Trecho de "cuíer paradiso".
Aconselho que o leitor experimente o texto poético antes da teoria. Que compreenda a forma saborosa como Tatiana Nascimento escreve antes de dialogar sobre o que ela pensa da literatura, da negritude e da diversidade sexual.
De onde quer que se parta, porém, é preciso saber que a poeta é senhora da própria língua, passando-a pelos terrenos que deseja: da tecnologia ao sexo, do medo à esperança. Tatiana Nascimento cria palavras, simplifica-as, apresenta distintas combinações de letras para um mesmo significado, usa o “y” latino em vez do “e” português.
Ela é dona do idioma pois sabe que há urgência no que diz. Não há tempo para preciosismo gramatical, formal. O tempo perdido com isso seria um impedimento para cumprir o único mandamento que Tatiana respeita e para o qual busca despertar o leitor: “vale lembrar do medo: é menor que o amor”, como proclama em seu mantra/poema “post-its”.
A mensagem dos poemas é muito simples: amor. Há o amor próprio, que a faz lutar, sim; mas há ainda mais intenso o amor por outras mulheres, descrito sem pressa, sem delicadezas ou brutalidades. Amor do cotidiano, como deveria ser toda forma de amor mútuo. Um amor rotineiro que é, para ela, o paraíso belo e inalcançável para a maioria.
“falar dor nos permite buscar cura (se é nosso projeto, imagino que, pra muitxs, seja). (...) mas somos seres complexos. não só máquinas de resistência e denúncia. e resistir ao estereótipo da resistência também é resistir, e mais: existir na plenitude que, desde o continente, aprendemos a construir como base fundamental de vida e bem-viver”. Trecho de “Cuírlombismo Literário”.
É essa a mensagem que Tatiana faz nascer em seus textos. Seu objetivo, em especial no ensaio “Cuírlombismo Literário”, é incitar o leitor a enxergar o amor lésbico e negro para além da dor que a sociedade impõe. No texto, ela discute o presente da literatura negra e LGBTI ao por em diálogo teóricos como Abdias do Nascimento e Beatriz do Nascimento (e a coincidência de sobrenomes é aproveitada com genialidade por Tatiana) e escritores brasilienses como Pedro Ivo e Kika Sena.
Os textos de Tatiana Nascimento estão no papel em livros que ela costura à mão. Os poemas e pensamentos dela também parecem dotados desta manualidade. São lembranças de que a vida pode ser mais simples se escolhermos enxergar o mundo nem com doçura nem com amargor. Há muitos outros temperos que se pode pôr no caldo da existência.





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